A psique fala antes da voz — e seu público percebe
Talvez sua comunicação não precise de mais técnicas, e sim de mais coerência
Michele B. Colombo
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Há muitos anos acompanho treinamentos de comunicação voltados a executivos e lideranças. São aulas repletas de técnicas sobre como posicionar o corpo, projetar a voz, responder a perguntas difíceis ou controlar o nervosismo. Tudo isso é útil — mas pouquíssimas vezes vi um treinamento que levasse em conta a psique do comunicador.
Raramente se fala sobre o que realmente sustenta a fala: o mundo interno de quem comunica. Emoções, crenças e experiências moldam a presença, o tom e até o alcance de uma mensagem. Antes da voz, é a psique que fala.
Pense em alguém que vai subir ao palco para a sua primeira grande apresentação diante de duzentas pessoas. O que essa pessoa precisa para se sentir segura ali? A técnica ajuda, claro. Mas a verdadeira segurança vem de outro lugar: da apropriação do conteúdo que tem a compartilhar, e da confiança em sua legitimidade como pessoa capacitada para comunicá-lo.
E aqui está uma das maiores armadilhas da comunicação corporativa: muitas vezes, o comunicador não se apropriou da mensagem que carrega. Por vários motivos, as pessoas são chamadas a falar sobre algo que não sentem como seu — ou, pior, que contrariam seus valores e crenças internas.
Imagine, por exemplo, alguém que trabalha em uma empresa de extração de petróleo e precisa apresentar um case do setor. No palco, a voz sai baixa, o discurso é hesitante, os olhos não brilham. Cumpre-se o combinado, mas não há conexão. O público sente que há algo estranho ali e não se convence da mensagem.
Pode ser falta de treino? Sim. Mas pode ser, também, falta de alinhamento interno. A pessoa talvez acredite, em algum nível, que o produto que defende causa dano ambiental. E entre a culpa e a necessidade de segurança, instala-se o conflito. O corpo fala a verdade que a boca tenta esconder.
As técnicas externas — de postura, dicção, storytelling — são essenciais. Mas minhas experiências tanto quanto speaker quanto como facilitadora me fazem acreditar que a maioria das situações de comunicação pobre não nascem da falta de técnicas; nascem da falta de coerência.
O “X” da questão para uma comunicação verdadeiramente eloquente é o alinhamento entre o propósito da mensagem e o mundo interno de quem a transmite. É a coerência entre a narrativa e a ética interior.
Quando essa congruência acontece, a fala ganha densidade... a voz tem textura e magnetiza... o corpo se move com segurança e presença. E o público sente — porque toda comunicação autêntica vibra numa frequência que nenhuma técnica, sozinha, é capaz de reproduzir.
Michele B. Colombo
