Corpo, cultura e comunicação
A expressão começa no corpo — mas a cultura decide o quanto ele pode se mover
Michele B. Colombo
11/5/20253 min read


Em ambientes corporativos, especialmente aqueles voltados a atividades intelectuais, o corpo costuma aparecer apenas quando o assunto é saúde ou bem-estar.
Fora desses momentos — palestras de ergonomia, ginástica laboral, campanhas de saúde mental —, ele se torna quase um “não lugar”. Uma presença invisível que carrega a mente até a próxima reunião, mas raramente é reconhecida como parte essencial do trabalho.
Há um certo pudor em falar sobre o corpo no contexto empresarial. É como se corpo e mente pertencessem a esferas distintas: a mente pensa, decide e produz; o corpo apenas executa. Essa separação, porém, é ilusória, e pode ter um custo alto para organizações e pessoas.
O corpo é a base da expressão — e das decisões
O corpo não é apenas veículo: é o sistema operacional da expressão humana. Ruborização, tensão muscular, mãos que se fecham, voz que treme, pés inquietos — tudo isso está comunicando algo, mesmo quando o discurso é racional.
No trabalho, tendemos a associar emoção à fragilidade e razão à competência. Mas neurocientificamente, isso é um equívoco. Emoção e cognição são processos integrados: as áreas cerebrais responsáveis por decisões complexas (como o córtex pré-frontal) funcionam em estreita relação com estruturas emocionais, como a amígdala e o sistema límbico.
Em outras palavras: toda decisão é emocional antes de ser racional. Negar isso é amputar grande parte da inteligência que poderia estar disponível no ambiente de trabalho.
A cultura decide o quanto o corpo pode se mover
Cada organização desenvolve códigos invisíveis sobre o que pode ou não ser expresso. Esses códigos definem se é permitido, por exemplo, respirar fundo antes de falar, rir de um erro, admitir insegurança ou fazer pausas para pensar.
A linguagem corporal é, portanto, uma forma de cultura. E, ao longo do tempo, empresas constroem “gramáticas corporais” próprias — muitas vezes rígidas, silenciosas e inibidoras.
Um líder que cruza os braços ou fecha a expressão sempre que alguém traz uma ideia nova comunica mais do que o conteúdo verbal de suas palavras. Um colaborador que evita olhar nos olhos, que se encolhe na cadeira ou fala com voz trêmula, está expressando muito sobre o clima de segurança psicológica do ambiente.
Esses pequenos gestos — quase imperceptíveis — revelam o quanto a cultura permite (ou não) que o corpo participe das conversas.
Quando o corpo é silenciado, o adoecimento fala
De acordo com o Relatório Mundial de Saúde Mental da OMS (2022), cerca de 15% dos adultos em idade laboral sofrem com algum transtorno mental. E o Brasil ocupa o segundo lugar no ranking global de casos de Síndrome de Burnout, com cerca de 30% dos trabalhadores afetados.
Esses números não indicam apenas sobrecarga de tarefas — mas, principalmente, refletem ambientes que não sabem lidar com emoção. Quando o corpo precisa esconder o cansaço, conter o choro ou travar o riso, ele acumula tensão. E isso tudo desvia energia da mente, afetando desde a produtividade até a autoestima dos colaboradores.
É por isso que as empresas mais inovadoras começam a repensar sua cultura comunicacional: reconhecendo que a saúde organizacional passa pelo acolhimento equilibrado das emoções — nem a permissividade caótica, nem a repressão produtiva.
Comunicação corporativa é também fisiologia
A NR-1, norma do Ministério do Trabalho que estabelece diretrizes para programas de saúde e segurança ocupacional, reconhece o impacto dos riscos psicossociais no ambiente de trabalho — entre eles, o estresse, a pressão emocional e os efeitos da má comunicação. Falar sobre isso não é “suavizar” o ambiente: é tornar o trabalho mais inteligente e sustentável.
Treinar líderes e equipes para perceber os sinais do corpo — no outro e em si — é treinar para uma comunicação mais humana, mais eficiente e, paradoxalmente, mais racional. Afinal, decisões equilibradas exigem mentes lúcidas, e mentes lúcidas precisam de corpos em presença.
Reaprender a se comunicar com o corpo inteiro
Comunicar com presença é alinhar o corpo, o pensamento e a intenção. Mais do que saber escolher as palavras certas, buscar esse alinhamento diminui os ruídos, a tensão e os mal-entendidos. E, principalmente, ela aumenta a confiança, que é a base onde culturas corporativas saudáveis prosperam.
A expressão começa no corpo, mas é a cultura que define o quanto ela pode se mover.
O desafio (e a beleza) está em criar culturas que não imobilizem o corpo, mas que reconheçam e permitam a expressão humana de forma saudável.
Michele B. Colombo
Estrategista em Comunicação e Liderança Consciente
Criadora da Merakii — Comunicação com Presença
