Os custos invisíveis do silêncio nas corporações

O medo de se expressar impacta produtividade, inovação e clima organizacional — e o que líderes podem fazer para restaurar a confiança comunicativa nas equipes

Michele B. Colombo

2 min read

oval brown wooden conference table and chairs inside conference room
oval brown wooden conference table and chairs inside conference room

Há um tipo de ruído que não se ouve nas empresas — mas que custa caro: é o silêncio. Quando profissionais deixam de falar o que pensam, de compartilhar ideias ou de sinalizar riscos e dificuldades, o que se perde não é apenas informação: perde-se tempo, engajamento e oportunidades de inovação.

Pesquisas recentes mostram o tamanho desse impacto. Segundo o relatório State of Business Communication (Grammarly, 2022), falhas de comunicação custam às empresas norte-americanas US$ 1,2 trilhão por ano — o equivalente a US$ 12.506 em perdas anuais por colaborador, apenas pelo tempo desperdiçado com retrabalho, mal-entendidos e mensagens imprecisas. E entre trabalhadores de linha de frente, a Unily (2025) identificou que se perdem cerca de 10 semanas de trabalho por ano apenas procurando informações, esperando instruções ou refazendo tarefas mal comunicadas.

Esses números revelam uma verdade: a comunicação é uma das maiores fontes de perdas silenciosas dentro das organizações. E o “silêncio corporativo” — aquele comportamento de omitir opiniões, ideias ou feedbacks por receio das consequências — é uma das formas mais dispendiosas desse problema.

Esse silêncio corporativo raramente é falta de opinião; quase sempre é falta de segurança psicológica. Em ambientes excessivamente hierárquicos, onde há distância entre líderes e liderados, a percepção de punição por erros ou discordâncias se torna uma barreira invisível à expressão. O resultado é um ciclo de autocensura: pessoas deixam de contribuir, de alertar sobre problemas e de propor soluções criativas — justamente o que as empresas mais precisam em tempos de complexidade e inovação contínua.

O preço do silêncio

O custo desse medo vai muito além das cifras. Ele acontece através de reuniões pouco produtivas, onde todos concordam superficialmente; em retrabalhos constantes, porque informações não foram ditas com clareza; em projetos que não evoluem, porque ninguém se arrisca a discordar; e em equipes desmotivadas, que deixam de sentir pertencimento quando percebem que suas vozes não fazem diferença.

Empresas com altos índices de silêncio organizacional também tendem a ter menor engajamento, maior turnover e mais dificuldade em reter talentos — especialmente entre as novas gerações, que valorizam transparência e autonomia.

Restaurar a confiança

O caminho para quebrar o ciclo do silêncio não passa apenas por “dar voz” às pessoas, mas por restaurar a confiança comunicativa dentro das equipes. Isso exige uma combinação de escuta, clareza e cultura.

Alguns passos essenciais:

  • Diagnosticar o ambiente: entender que fatores culturais alimentam o receio de se expressar — medo de errar, competição interna, liderança controladora, ou falta de clareza estratégica.

  • Modelar comportamentos de abertura: líderes precisam ser os primeiros a praticar vulnerabilidade e escuta ativa, mostrando que discordar pode ser construtivo.

  • Criar espaços de diálogo seguro: rituais de feedback e reuniões de aprendizagem (debriefs, retrospectivas), onde o erro é tratado como dado, não como falha.

  • Reforçar a clareza: comunicações coerentes, com uma intenção clara por trás, reduzem ruídos e dão às pessoas a segurança de que estão alinhadas aos objetivos comuns.

Em um ambiente onde a comunicação é vista como ferramenta de construção do negócio — e não como fonte de tensão ou punição, as vozes voltam a ser ouvidas. E quando esse som volta, a inovação também respira.

Michele B. Colombo